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sábado, 13 de junho de 2009

Falsificando humanidade

Ontem fui assistir "Os Falsários", filme de 2007 , do austríaco Stefan Ruzowitsky que só agora chegou aos cinemas brasilienses. Entramos no cinema - Beto e eu - entre curiosos e cansados (mais um filme sobre o Holocausto...), saímos impactados e impressionados.

O filme é, de fato, mais um filme sobre o Holocausto. Mas, além de qualidades diversas, tem originalidade. Tem uma estética particular, uma direção pouco convencional, uma trilha sonora que se destaca (uma das mais bonitas versões do tango Mano a Mano...) e atuações fortes. E um roteiro original, baseado na história real da "Operação Bernhard", conduzida pelos nazistas durante a guerra e responsável pelo maior empreendimento de falsificação de dinheiro do mundo.

A operação consistia na produção de documentos e de dinheiro falso por uma equipe de judeus "especialistas" que, separados dos demais num campo de concentração, eram forçados a contribuir para o financiamento da loucura nazista. Digo separados, porque a esse grupo específico eram proporcionandas "regalias" que os outros sequer imaginavam. Camas macias, banho, comida, música, finais de semana. Claro, trabalho escravo com algumas humilhações básicas no meio do campo. Mas, ainda assim, um verdadeiro oásis em meio ao horror.

E a crueldade - e também a originalidade - do filme é exatamente essa: mostrar que, diante do inenarrável do horror, qualquer coisa vale pra se recriar uma mínima ilusão de humanidade. No caso do filme, isso significa aqueles judeus, "prisioneiros especiais", criando e imprimindo o dinheiro que irá financiar a continuidade das atrocidades alemãs durante a II Guerra, enquanto suas mulheres, seus filhos, seus pais, seus irmãos, em estado de total desumanidade, continuam sendo fuzilados, entoxicados, mortos.

O filme faz um percurso contrário ao do Pianista, no qual acompanhamos o processo de desumanização - de animalização - de um homem dos mais humanizados. Em "Os Falsários", de um estado de completa desumanidade, reconstrói-se a sensação de se ser humano numa situação limite, cheia de contradições e de paradoxos.

No fundo, é isso o que os falsários falsificam: a própria humanidade. E nesse sentido, o filme nos permite ultrapassar as contingências históricas e étnicas para nos fazer pensar na nossa própria falsificação cotidiana de humanidade - essa que nos permite tratar nossas desigualdades mais profundas como cenas de um filme que sequer nos interessa.

Vale a pena ver.