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segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Guimarães moçambicano

Para mim, Mia Couto é o equivalente moçambicano do nosso Guimarães Rosa. O trabalho inventivo e laborioso com a linguagem, o embrenhar-se pelos rincões populares cada qual de seu país e a melancolia árida e forte das gentes abandonadas são marcas das duas literaturas. A beleza poética que te seduz e te permite ler o áspero como se suave fosse, também.

Abaixo o começo de dois contos do livro "O fio das missangas", publicado em 2004 pela Companhia das Letras:

"Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança" (Inundação, pág. 25)

"Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente nocturna. Nasci para cozinha, pano e prato. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha" (A saia almarrotada, pág. 29).