sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Aos olhos grandes do meu filho
Meu filho nasceu há 4 meses e meio e me sento a escrever somente agora, tomada de repente por esse eterno, ainda que às vezes adormecido, desejo da escrita que mora em mim.
Prometi que não seria esse blog um diário público e tenho a intenção de cumprir a promessa. Mas, nesse momento, não podia me sentar aqui a escrever sobre outra coisa a não ser sobre os grandes olhos de meu filho, porque são esses olhos que eu agora vejo em tudo o que vejo. É como se eu agora tivesse quatro, e já não mais apenas dois - os meus - olhos. Dei meus olhos ao meu filho e ganhei os dele troca. E me emociono sempre acompanhando os primeiros olhares dele para cada coisa, porque é um pouco como se eu também revisse cada coisa pela primeira vez. Olhar pra ele olhando pra mim é como entrar numa viagem caleidoscópica. Nada mais existe, só aquele infinito entre nossos olhares.
Os olhos grandes de meu filho renovam e iluminam os meus. Me aprisionam e me libertam. Imprimem novos significados ao que sempre existiu diante dos meus olhos. A vida continua a mesma e é, ao mesmo tempo, completamente nova. E eu que imaginava a maternidade como a experiência máxima de libertação do eu, entendo agora que ela é, na verdade, uma profunda e permanente viagem pelo eu - um confrontar sem cessar dos espaços habitados e dos ainda desertos das profundezas da individualidade.
Ah, meus olhos grandes... agora maiores ainda...
terça-feira, 1 de junho de 2010
Meu caro amigo... 30 anos depois
Compartilhando arroubos chico-buarquianos de Beto Kleiman.
A entrevista que o Chico deu pra revista Brazuca, mes passado, mexeu comigo. Principalmente sua ultima resposta. Perguntado o que diria ao seu caro amigo nos dias de hoje, respondeu, brilhantemente: "Volte que as coisas estão melhorando".
Fiquei com aquilo ecoando na cabeça. A sacada do Chico estava na percepção da mudança do ambiente, não apenas político, mas no clima como um todo, no ar que se respira. Para além da melhoria da vida de milhões de brasileiros, do crescimento econômico, da projeção e reconhecimento internacional, há um clima diferente no ar, um certo otimismo contagiante.
Começamos a entender que ser brasileiro é bom, é bonito, é bacana e pode até ser chique. E que sendo quem somos, com nossos defeitos e qualidades, podemos ir longe.
Há muito ainda por fazer, não nos enganemos. Mas pra quem, no final dos anos 90, não via sequer uma luz no fim do túnel, quanta diferença...
Imaginei então essa conversa entre os dois caros amigos, muitos anos depois. E escrevi como poderia ser...
MEU CARO AMIGO...30 ANOS DEPOIS
(adaptação livre – Beto Kleiman)
Meu caro amigo me perdoe, por favor
Há tanto tempo sem contato
Mas só agora que troquei de provedor
Te mando em e-mail este relato
Aqui na terra ainda jogam futebol
E tem pagode, funk rock e samba soul
É tudo junto, chuva, enchente e muito sol
Mas o que eu quero é lhe dizer, que o país tá porreta...
Até parece que acabou a amolação
E a gente trabalhando até que sobra um dinheirinho
Que a gente batalhando construiu nosso caminho
Ninguém segura esse avião...
Meu caro amigo eu não pretendo te contar
Nenhum conto da Carochinha
Mas eu te digo que mal posso acreditar (mas eu te digo que essa crise cavalar)
Que a crise foi só marolinha (por aqui foi só marolinha)
Aqui na terra ainda jogam futebol
E tem pagode, funk rock e samba soul
É tudo junto, chuva, enchente e muito sol
Mas o que eu quero é lhe dizer, que o país tá porreta...
O Presidente até parece pop star
É premio de revista, de jurista e de bacana
Que o cara foi chamado de “o cara” pelo Obama
Ninguém segura esse avião
Meu caro amigo eu quase esqueço de falar
Que as eleições já estão chegando
E pra que a vida continue a melhorar
É só seguir acreditando
Aqui na terra ainda jogam futebol
E tem pagode, funk rock e samba soul
É tudo junto, chuva, enchente e muito sol
Mas o que eu quero é lhe dizer, que o país tá porreta...
A Nina manda muitos beijos pra vocês
E o Moishe, a Ita, a Nanda, Tânia, Beto e o Bruninho
Te mando aquele abraço, muito amor, muito carinho
Pra todo pessoal, shalom!
terça-feira, 2 de março de 2010
Amor até o fim
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Parênteses de final de ano
Gosto muito dos finais de ano - esses ritos de renovação. Tenho sempre essa sensação gostosa de que, por algumas semanas, abre-se um hiato, um parênteses no calendário, nas agendas, nos relógios e podemos pensar, sonhar e fazer várias pequenas coisas que, no correr ligeiro do período de fora do parênteses, escorrem feito areia por entre os dedos. É uma ilusão boa de se ter, essa. Arrumar armários e gavetas, cozinhar, ligar e escrever para amigos distantes, terminar aquele romance começado e recomeçado infinitas vezes, ouvir música esparramada no sofá, sem fazer mais nada além de ouvir música (isso sim é que é luxo!). Várias pequenas grandes coisas que cabem no espacinho desse parênteses. Delícia pura.
Numa dessas, escutei a playlist da rádio Eldorado com algumas canções dos 10 melhores álbuns nacionais de 2009 - segundo a Eldorado. Não sei se são os top 10 de verdade - se tem algo que não acompanhei durante o ano foram os lançamentos desse mercado musical... - mas as músicas são muito boas e as e os eleitos também. Tem Adriana Calcanhoto cantando Gatinha Manhosa! Do Léo Jaime, lembra?? Muito bom... gosto de final de infância... Enfim, segue o link para a playlist. Abram seus parênteses e façam ótimo proveito!
http://www.territorioeldorado.limao.com.br/musicas/playlists/playlist.php?guid=EB2CCF0E2016449B813915AC65065CF8,melhores-%C3%A1lbuns-de-2009---nacionais-
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
À lua
Inteira
Iluminada
E o reverso faz-se direito
Teso, retilíneo.
Mas também leve e fugidio
Quase corriqueiro
Quase corredio
Quase sombra se não fosse luz
E o revolto faz-se pacífico
Lento e dourado
Caminhando pela áurea escuridão alumiada
Embalado por um cântico de eternas noites
De eternas notas
De infinitos suspiros
De ventos quase brisas
E de brisas quase ventos
E as cores, já menos cores
Espelham brilho
Ressaltam contornos
Abrem caminhos
Para deixar passar a lua
Que às vezes surge inteira
Branca
Iluminando
Nina Madsen
domingo, 20 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Independência de quem, mesmo?
O 7 de setembro definitivamente não me comove. Acho meio patética a insistente tentativa de fazê-lo parecer às demais festas nacionais mundo afora e essa história de desfile militar é o fim. A data não desperta nenhum sentimento profundo de amor à pátria, não te permite nenhuma associação ou vinculação a um processo real e generalizado de independência. Pra mim, a única independência que se proclamou naquele 7 de setembro foi a de D. Pedro, que ali, às margens do Ipiranga, decidiu que era já bem grandinho para seguir obedecendo a seu pai. Saiu bem na fita, o rapaz. Virou imperador e levou este enorme país verde e amarelo.
Desse momento em diante, o que o Brasil experimentou foi uma longa sucessão de dependências as mais diversas.
Independência de verdade, acho que é outra coisa. E, no nosso caso, acho que são alguns e plurais momentos ao longo de uma história mais recente. O sufrágio universal, a constituinte de 1988, a eleição do Lula, o FMI saindo do país. Foram todos gritos de independência bem mais audíveis, bem mais reais que aquele remoto "Independência ou Morte".
Hoje, portanto, aproveito o feriado para saudar nosso país e nosso povo por estar continuamente conquistando sua independência, apesar do 7 de setembro...