segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vik Muniz


O que vêem teus olhos?
Um monte de lixo - o que é pra você?
O resto da tua macarronada de domingo - te diz alguma coisa?
Para Vik Muniz, é tudo palavra, linguagem. Vira arte.

Num documentário, ele conta mais ou menos assim a história do primeiro artista: um dia, um homem (sic) viu um enorme formigueiro e, confundindo-o com um bizão, acertou nele sua lança. Chegando mais perto e se dando conta do engano, correu para sua aldeia e avisou a todos "corram, tem um bizão na floresta!". Todos saíram à caça do animal, atirando, ávidos, suas lanças no formigueiro. Enquanto isso, escondido atrás de uma árvore, o primeiro homem ria, divertindo-se com a ilusão produzida. Este foi o primeiro artista, conta Vik Muniz.

Pra ele, portanto, a arte é essa capacidade humana de ver, naquilo que existe, o que não existe. É ilusão, é mímese, é a originalidade da cópia, da transfiguração.

É também desvendar e recriar os mistérios, nunca esgotá-los. "O passo brutal que a humanidade se impôs está concentrado exclusivamente na remoção de toda inescrutabilidade e ambiguidade nesta passagem pela vida. Preferimos a chegada à viagem, a pornografia à sedução, a vigilância à confiança, os reality shows às histórias fantásticas, a insônia ao sonho. Com a mídia onipresente e avassaladora, raios x, sonorradiografias, câmeras escondidas e videoconferências revelamos tudo e nada escondemos - esquecendo-nos de que aquele que vê através de tudo é no fundo tão cego quanto aquele que nada vê" (Muniz. Reflex, 2007: 07).

A arte de Vik Muniz é feita assim: desvendando e recriando mistérios. Ela parte de imagens capturadas, reproduzidas com materiais os mais diversos e reconvertidas em imagens. De um monte de lixo, ele produz retratos das pessoas que vivem no lixão e fotografa esses retratos feitos de lixo. Dos restos da macarronada, surge uma medusa assustadora. Com um punhado de açúcar sobre uma superfície escura, ele desenha e fotografa os rostos de doces crianças caribenhas.

Eu não conhecia Vik Muniz e não tinha nenhuma idéia do impacto de sua obra até ver sua exposição no Masp. Pirei. Me encantei não só pela obra genial do artista, mas também pelo discurso político e pelo conceito atístico por trás da obra (ler Vik Muniz tem sido tão estimulante e enriquecedor quanto foi ver). Ele é absolutamente contemporâneo - mistura técnicas, utiliza materiais inusitados, transforma em belo o grotesco, em aprazível o asqueroso, cria a partir de conceitos abstratos - sem deixar de ser acessível, sem deixar de alcançar e se comunicar com qualquer público. E, num momento artístico como o atual, em que oscilamos entre o comercial de fácil digestão e o conceitual de impossível compreensão, esse é um mérito a ser aplaudido.

A exposição está no Masp, o livro se chama Reflex e foi publicado no Brasil pela CosacNaify. Valem muito a pena, ambos.

O avesso do avesso do avesso

Há algumas cidades bem fáceis de se amar. O Rio, por exemplo. Muito fácil, muito óbvio. E a obviedade de certos amores sempre me pareceu de um tédio mortal. Difícil - e estimulante - é amar São Paulo, é ver beleza naquela feiúra toda. Eu amo São Paulo. Amo aqueles dias de mau-humor profundo que a cidade tem: o céu cinza, sem nenhuma possibilidade de sorriso azul; o ar carregado, denso, que te faz sentir cada inspiração; a garoa inconveniente que sempre te pega no meio do caminho; os andares apressados e indiferentes, às vezes até grosseiros, de seus moradores. Amo a diversidade absurda das gentes, ainda que saiba que nela e por ela se instala desigualdade profunda - eterna panamérica de áfricas utópicas. Amo o anonimato e a solidão da experiência urbana que é essa cidade. E não porque tudo isso me pareça muito bom, mas porque em tudo isso, em toda a inescapável tristeza contida em tamanho despropósito de cidade, mora uma riqueza de humanidades inigualável. Experiência de absurdo. Realidade - aprende-se depressa.

O fascínio por São Paulo é o fascínio pela solidão humana. É a estranha mescla de atração e repulsa pelo lado grotesco da vida. Não só o grotesco explícito, exposto nas ruas, calçadas, paisagens e rostos desfigurados pelo abandono. Mas o grotesco do paradoxo, do absurdo de uma cidade onde o tudo e o nada convivem lado a lado. Porque há sim beleza naquela cidade. Há beleza no Centro, nos antigos edifícios às portas dos quais dormem os solitários de todos os dias. Beleza das artes todas que brotam e florescem em meio ao concreto duro, cinza e áspero. Beleza no canto dos monges de São Bento, cobertos pela mesma batina que encobre os crimes de uma Igreja decrépita.

Amar São Paulo é amar o absurdo da vida. O completo disparate de encontrar o belo no que há de mais grotesco. E não tem jeito, alguma coisa sempre, sempre acontece no meu coração....

quinta-feira, 25 de junho de 2009

E eis que surge Vítor Araújo

Ele, na verdade, já surgiu há algum tempo, apesar da pouquíssima idade que tem. Mas pra mim, nasceu ontem, plena quarta-feira, no Clube do Choro, casa meio vazia de gente, mas cheia, repleta de gentes extasiadas com o que ouviam e sentiam. Ele ainda se apresenta hoje e amanhã, pra quem se animar.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nina Simone

Gosto de pensar que me chamo Nina por causa de Nina Simone. Não é exatamente essa a história que me contaram, mas digamos que foi essa a que inventei pra mim - porque, afinal de contas, não existe nesse mundo nenhuma razão melhor pra uma mulher se chamar Nina. E o mais louco é que Nina Simone não se chamava Nina. Se auto-batizou Nina, como quem se proclama rainha, ou como quem se declara livre. É isso - o Nina de Nina Simone é uma espécie de auto-declaração de liberdade. E eis o que ela diz e canta sobre a liberdade...






Nunca ouvi ninguém cantar ou tocar com tanta emoção, com tanta intenção, com tanta majestade. Ouvir Nina Simone é sempre uma descoberta, um despertar. Impossível ficar indiferente. Vai dizer que você também não queria se chamar Nina agora?

Her Morning Elegance

sábado, 13 de junho de 2009

Falsificando humanidade

Ontem fui assistir "Os Falsários", filme de 2007 , do austríaco Stefan Ruzowitsky que só agora chegou aos cinemas brasilienses. Entramos no cinema - Beto e eu - entre curiosos e cansados (mais um filme sobre o Holocausto...), saímos impactados e impressionados.

O filme é, de fato, mais um filme sobre o Holocausto. Mas, além de qualidades diversas, tem originalidade. Tem uma estética particular, uma direção pouco convencional, uma trilha sonora que se destaca (uma das mais bonitas versões do tango Mano a Mano...) e atuações fortes. E um roteiro original, baseado na história real da "Operação Bernhard", conduzida pelos nazistas durante a guerra e responsável pelo maior empreendimento de falsificação de dinheiro do mundo.

A operação consistia na produção de documentos e de dinheiro falso por uma equipe de judeus "especialistas" que, separados dos demais num campo de concentração, eram forçados a contribuir para o financiamento da loucura nazista. Digo separados, porque a esse grupo específico eram proporcionandas "regalias" que os outros sequer imaginavam. Camas macias, banho, comida, música, finais de semana. Claro, trabalho escravo com algumas humilhações básicas no meio do campo. Mas, ainda assim, um verdadeiro oásis em meio ao horror.

E a crueldade - e também a originalidade - do filme é exatamente essa: mostrar que, diante do inenarrável do horror, qualquer coisa vale pra se recriar uma mínima ilusão de humanidade. No caso do filme, isso significa aqueles judeus, "prisioneiros especiais", criando e imprimindo o dinheiro que irá financiar a continuidade das atrocidades alemãs durante a II Guerra, enquanto suas mulheres, seus filhos, seus pais, seus irmãos, em estado de total desumanidade, continuam sendo fuzilados, entoxicados, mortos.

O filme faz um percurso contrário ao do Pianista, no qual acompanhamos o processo de desumanização - de animalização - de um homem dos mais humanizados. Em "Os Falsários", de um estado de completa desumanidade, reconstrói-se a sensação de se ser humano numa situação limite, cheia de contradições e de paradoxos.

No fundo, é isso o que os falsários falsificam: a própria humanidade. E nesse sentido, o filme nos permite ultrapassar as contingências históricas e étnicas para nos fazer pensar na nossa própria falsificação cotidiana de humanidade - essa que nos permite tratar nossas desigualdades mais profundas como cenas de um filme que sequer nos interessa.

Vale a pena ver.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Atos secretos no espaço público.

Uma pergunta nem tão prosaica: "ato secreto" é um termo oficial? Ou é algo que a imprensa inventou? Porque não consigo acreditar que possa existir tal figura na administração pública (ainda que eu entenda lhufas de administração pública...). "Ato secreto", dentro do espaço público?? Como assim?? Pra mim "atos secretos" tem sabor de adultério a la "Primo Basílio", ou de ninfomania de batina, a la "Crime do Padre Amaro". "Ato secreto" é Eça de Queirós puro!!!

E a melhor parte é o Sarney reafirmando que não sabia de nada. Mais de 3.000 reais todo mês "sobrando" na conta e ele nunca se deu conta de que recebia auxílio-moradia. O neto do sujeito trabalhando na casa que ele preside, e ele não sabia de nada. Já pensou se o Bill Clinton, depois daquele boquete histórico, tivesse vindo a público dizer "puxa, eu nunca tinha percebido...Monica who???"??

Não tô dando conta mais desse Parlamento esdrúxulo, de atos secretos e privados invadindo o espaço supostamente público. Tem que mandar todo mundo voltar pra escola e aprender um pouco sobre república, cidadania, democracia. Ops! Só que a gente não aprende isso nas nossas escolas... Você já tinha percebido?