segunda-feira, 29 de junho de 2009

O avesso do avesso do avesso

Há algumas cidades bem fáceis de se amar. O Rio, por exemplo. Muito fácil, muito óbvio. E a obviedade de certos amores sempre me pareceu de um tédio mortal. Difícil - e estimulante - é amar São Paulo, é ver beleza naquela feiúra toda. Eu amo São Paulo. Amo aqueles dias de mau-humor profundo que a cidade tem: o céu cinza, sem nenhuma possibilidade de sorriso azul; o ar carregado, denso, que te faz sentir cada inspiração; a garoa inconveniente que sempre te pega no meio do caminho; os andares apressados e indiferentes, às vezes até grosseiros, de seus moradores. Amo a diversidade absurda das gentes, ainda que saiba que nela e por ela se instala desigualdade profunda - eterna panamérica de áfricas utópicas. Amo o anonimato e a solidão da experiência urbana que é essa cidade. E não porque tudo isso me pareça muito bom, mas porque em tudo isso, em toda a inescapável tristeza contida em tamanho despropósito de cidade, mora uma riqueza de humanidades inigualável. Experiência de absurdo. Realidade - aprende-se depressa.

O fascínio por São Paulo é o fascínio pela solidão humana. É a estranha mescla de atração e repulsa pelo lado grotesco da vida. Não só o grotesco explícito, exposto nas ruas, calçadas, paisagens e rostos desfigurados pelo abandono. Mas o grotesco do paradoxo, do absurdo de uma cidade onde o tudo e o nada convivem lado a lado. Porque há sim beleza naquela cidade. Há beleza no Centro, nos antigos edifícios às portas dos quais dormem os solitários de todos os dias. Beleza das artes todas que brotam e florescem em meio ao concreto duro, cinza e áspero. Beleza no canto dos monges de São Bento, cobertos pela mesma batina que encobre os crimes de uma Igreja decrépita.

Amar São Paulo é amar o absurdo da vida. O completo disparate de encontrar o belo no que há de mais grotesco. E não tem jeito, alguma coisa sempre, sempre acontece no meu coração....

Um comentário:

  1. A beleza não se opõe ao que é feio; ela se opõe ao que é insignificante. São Paulo siginifica, e portanto é bela :)

    ResponderExcluir