Tenho sim um lado ufanista. Apesar dos pesares, adoro o Brasil e adoro propagandar as maravilhas da nossa terra por aí. Nada de carnaval e futebol - muito óbvio, muito clichê, muito irritante. Mas a música, a criatividade, o colorido, a diversidade cultural e o espírito leve, informal e, sempre que possível, alegre desse país. É isso o que desperta meu ufanismo, mesmo nos momentos de mais profunda desilusão.
O 7 de setembro definitivamente não me comove. Acho meio patética a insistente tentativa de fazê-lo parecer às demais festas nacionais mundo afora e essa história de desfile militar é o fim. A data não desperta nenhum sentimento profundo de amor à pátria, não te permite nenhuma associação ou vinculação a um processo real e generalizado de independência. Pra mim, a única independência que se proclamou naquele 7 de setembro foi a de D. Pedro, que ali, às margens do Ipiranga, decidiu que era já bem grandinho para seguir obedecendo a seu pai. Saiu bem na fita, o rapaz. Virou imperador e levou este enorme país verde e amarelo.
Desse momento em diante, o que o Brasil experimentou foi uma longa sucessão de dependências as mais diversas.
Independência de verdade, acho que é outra coisa. E, no nosso caso, acho que são alguns e plurais momentos ao longo de uma história mais recente. O sufrágio universal, a constituinte de 1988, a eleição do Lula, o FMI saindo do país. Foram todos gritos de independência bem mais audíveis, bem mais reais que aquele remoto "Independência ou Morte".
Hoje, portanto, aproveito o feriado para saudar nosso país e nosso povo por estar continuamente conquistando sua independência, apesar do 7 de setembro...
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
sábado, 5 de setembro de 2009
Appris par corps
Ontem fui assistir ao espetáculo Appris par Corps, da companhia Un loup par l'homme, parte da programação do Cena Contemporânea desse ano (aliás, imperdível!).
São dois homens no palco, dialogando através da dança e da acrobacia de uma maneira impressionante. Apesar da intensidade dos movimentos, há muita leveza, fluidez e sintonia, o que acaba por eliminar, em boa parte do tempo, aquela suspensão da respiração típica de espetáculos circenses/acrobáticos.
Vale a pena ver pela beleza e precisão do trabalho corporal, pelo bom-humor do espetáculo e pelas reações da platéia - umas das partes mais divertidas da noite, eu achei. Metade achava que estava diante de um quadro circense; a outra, pensava que assistia a um super cult espetáculo de dança contemporânea. Resultado: no meio do espetáculo, depois de uma acrobacia impressionante qualquer, a primeira metade aplaudia e soltava gritinhos de empolgação (como no circo), enquanto a outra metade, com cara feia e arrogante, pedia silêncio num coro de ssshhhhhh (como que pedindo o silêncio necessário à apreciação da arte em cena). Hilário!
São dois homens no palco, dialogando através da dança e da acrobacia de uma maneira impressionante. Apesar da intensidade dos movimentos, há muita leveza, fluidez e sintonia, o que acaba por eliminar, em boa parte do tempo, aquela suspensão da respiração típica de espetáculos circenses/acrobáticos.
Vale a pena ver pela beleza e precisão do trabalho corporal, pelo bom-humor do espetáculo e pelas reações da platéia - umas das partes mais divertidas da noite, eu achei. Metade achava que estava diante de um quadro circense; a outra, pensava que assistia a um super cult espetáculo de dança contemporânea. Resultado: no meio do espetáculo, depois de uma acrobacia impressionante qualquer, a primeira metade aplaudia e soltava gritinhos de empolgação (como no circo), enquanto a outra metade, com cara feia e arrogante, pedia silêncio num coro de ssshhhhhh (como que pedindo o silêncio necessário à apreciação da arte em cena). Hilário!
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
O sumiço do Belchior - será que pega?
Qual não foi a minha surpresa ao ler, essa semana, que o cantor Belchior está desaparecido há 2 anos! Não sou fã de Belchior, nem um pouco fã, aliás, e não tinha a menor idéia de que o cara andava sumido há tanto tempo. O fato é que a história me intrigou. Não, a história me fascinou! Como é que pode uma figura pública como ele simplesmente sumir sem deixar rastro? Imediatamente me veio à cabeça a óbvia tentação: se ele consegue, será que eu também não posso tentar?
Digo óbvia porque no dia seguinte eu já lia na Folha que Tom Zé anunciava vontade de entrar na onda. É claro. Quem é que não quer tomar um belo chá de sumiço de vez em quando?
Digo óbvia porque no dia seguinte eu já lia na Folha que Tom Zé anunciava vontade de entrar na onda. É claro. Quem é que não quer tomar um belo chá de sumiço de vez em quando?
Fiquei imaginando as situações possíveis e viajando na história.
Cena possível # 1: de saco cheio de tudo e de todos, depois de um dia alucinante de trabalho e conflitos, Belchior, dirigindo seu conversível azul (??), decide não virar à esquerda como todos os dias, mas sim seguir reto atéééééé não poder mais. Ao longo do percurso, ele vai, quilômetro a quilômetro, se despojando de cada amarra, de cada obrigação, de cada conflito. Sem mala, sem dinheiro, sem planejamento de viagem. Sem destino certo. Ele vai dirigindo. De repente, a luz da gasolina acende e ele decide que é hora de parar. Pronto. Começa aí a nova vida de Belchior.
Cena possível # 2: ele sai apressado de casa pra não se atrasar pra reunião super importante com o empresário dele: salvamento de carreira. Pega um táxi e, no meio do caminho, recebe uma ligação do dito cujo que avisa que deu xabu: nem adianta reunião, conversa, nada. A gravadora já disse que nem fudendo. Belchior desliga o telefone e, num clarão de entendimento, pede pro taxista mudar de rumo e seguir pro aeroporto. Lá, ele procura o balcão mais vazio e compra uma passagem pro destino mais improvável - no Brasil ou no Mercosul, é claro, porque o cara não ia sair com o passaporte de casa assim, sem mais nem menos. Embarca e desaparece. Começa aí a nova vida de Belchior.
Cena possível # 3: essa, na verdade, é a mais chata - é a planejada, arquitetada, com direito a visto pra Bora Bora, mala pra 3 meses e cartas de despedida ultra rascunhadas. Não tem graça.
Eu não conheço as condições do sumiço do cidadão, não li as matérias, não vi o Fantástico. De repente a história é muito trágica e eu tô aqui me divertindo com a desgraça alheia. Espero que não. Em todo o caso, não pude evitar ser tomada por essa inspiração retórica de sumir também. É que a vida às vezes se enrosca na gente de um jeito que nem parece nosso. É como de repente acordar e se ver personagem de uma história que não é tua. E aí o jeito é sair. "E se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, quando eu me encontrar...". Boa sorte pro Belchior...
sábado, 22 de agosto de 2009
Uma pausa de mil compassos
Diz o meu avô que a chuva de agosto é a chuva do caju e que, esse ano, ela chegou uns 15 dias atrasada - o tempo dela é, na verdade, o início do mês, quando os cajueiros começam a florescer anunciando a fartura dos frutos. Mas, pelo caju ou não, o fato é que a chuva de ontem nos surpreendeu a todos.
Impõe um certo momento de suspensão, uma chuva em pleno período de seca em Brasília. É como se tudo o mais parasse e perdesse a importância durante aqueles breves minutos em que a água vai caindo. O vento, o cheiro, o som. A chuva é um pacote completo de despertar sensorial. Enleva e eleva. Pelo menos aqui, nessas terras áridas do planalto central. A chuva aqui definitivamente não é a mesma chuva de São Paulo ou do Rio, onde ela anuncia mais catástrofe que redenção.
Acho que essa chuva de ontem nos alivia um pouco desse arrastar sem fim que é o mês de agosto. Outro dia, uma amiga comentou que agosto parecia ter 20 semanas - não acabava nunca! Respondi a ela que era porque agosto é o começo do fim: é o primeiro mês útil do fim do ano, é quando nos damos conta de que nosso arbitrário tempo está se acabando. Aí é aquela correria louca - de repente se esgotam todos os prazos do mundo e os dias parecem não ter fim.
Daí vem a chuva pra nos avisar que, com prazo ou sem prazo, o Tempo não é nosso. E que mais vale então parar por 10 minutos pra sentir a brisa e o perfume da terra molhada. Merecida pausa de mil compassos num mês de 20 semanas....
Impõe um certo momento de suspensão, uma chuva em pleno período de seca em Brasília. É como se tudo o mais parasse e perdesse a importância durante aqueles breves minutos em que a água vai caindo. O vento, o cheiro, o som. A chuva é um pacote completo de despertar sensorial. Enleva e eleva. Pelo menos aqui, nessas terras áridas do planalto central. A chuva aqui definitivamente não é a mesma chuva de São Paulo ou do Rio, onde ela anuncia mais catástrofe que redenção.
Acho que essa chuva de ontem nos alivia um pouco desse arrastar sem fim que é o mês de agosto. Outro dia, uma amiga comentou que agosto parecia ter 20 semanas - não acabava nunca! Respondi a ela que era porque agosto é o começo do fim: é o primeiro mês útil do fim do ano, é quando nos damos conta de que nosso arbitrário tempo está se acabando. Aí é aquela correria louca - de repente se esgotam todos os prazos do mundo e os dias parecem não ter fim.
Daí vem a chuva pra nos avisar que, com prazo ou sem prazo, o Tempo não é nosso. E que mais vale então parar por 10 minutos pra sentir a brisa e o perfume da terra molhada. Merecida pausa de mil compassos num mês de 20 semanas....
domingo, 2 de agosto de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
Sobre canções e orações
Há algo de religioso, de espiritual na música. E há canções que, pra mim, são como orações. Me tocam, emocionam e elevam muito mais que qualquer reza de dizer com livro na mão - seja lá qual for o livro. A música e a dança são minhas pontes para o divino, para a transcendência. Não te pedem nada em troca, não te enquadram nos limites de uma identidade, não separam - reúnem.
Outro dia postei um vídeo de Elis Regina cantando Águas de Março - bonito demais. Uma oração de força e de cadência. Outra que gosto muito de repetir, e que tem inclusive "oração" no nome, é a Oração ao Tempo, de Caetano: "Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo, tempo, tempo, tempo, quando o tempo for propício...". Eita, que é bonito...
E tem Sonho Meu, também, de Dona Ivone Lara. Cantada pela Marina de la Riva, ficou um primor. Deixo o vídeo pra vocês se elevarem comigo...
Outro dia postei um vídeo de Elis Regina cantando Águas de Março - bonito demais. Uma oração de força e de cadência. Outra que gosto muito de repetir, e que tem inclusive "oração" no nome, é a Oração ao Tempo, de Caetano: "Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo, tempo, tempo, tempo, quando o tempo for propício...". Eita, que é bonito...
E tem Sonho Meu, também, de Dona Ivone Lara. Cantada pela Marina de la Riva, ficou um primor. Deixo o vídeo pra vocês se elevarem comigo...
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