
O que vêem teus olhos?
Um monte de lixo - o que é pra você?
O resto da tua macarronada de domingo - te diz alguma coisa?
Para Vik Muniz, é tudo palavra, linguagem. Vira arte.
Num documentário, ele conta mais ou menos assim a história do primeiro artista: um dia, um homem (sic) viu um enorme formigueiro e, confundindo-o com um bizão, acertou nele sua lança. Chegando mais perto e se dando conta do engano, correu para sua aldeia e avisou a todos "corram, tem um bizão na floresta!". Todos saíram à caça do animal, atirando, ávidos, suas lanças no formigueiro. Enquanto isso, escondido atrás de uma árvore, o primeiro homem ria, divertindo-se com a ilusão produzida. Este foi o primeiro artista, conta Vik Muniz.
Pra ele, portanto, a arte é essa capacidade humana de ver, naquilo que existe, o que não existe. É ilusão, é mímese, é a originalidade da cópia, da transfiguração.
É também desvendar e recriar os mistérios, nunca esgotá-los. "O passo brutal que a humanidade se impôs está concentrado exclusivamente na remoção de toda inescrutabilidade e ambiguidade nesta passagem pela vida. Preferimos a chegada à viagem, a pornografia à sedução, a vigilância à confiança, os reality shows às histórias fantásticas, a insônia ao sonho. Com a mídia onipresente e avassaladora, raios x, sonorradiografias, câmeras escondidas e videoconferências revelamos tudo e nada escondemos - esquecendo-nos de que aquele que vê através de tudo é no fundo tão cego quanto aquele que nada vê" (Muniz. Reflex, 2007: 07).
A arte de Vik Muniz é feita assim: desvendando e recriando mistérios. Ela parte de imagens capturadas, reproduzidas com materiais os mais diversos e reconvertidas em imagens. De um monte de lixo, ele produz retratos das pessoas que vivem no lixão e fotografa esses retratos feitos de lixo. Dos restos da macarronada, surge uma medusa assustadora. Com um punhado de açúcar sobre uma superfície escura, ele desenha e fotografa os rostos de doces crianças caribenhas.
Eu não conhecia Vik Muniz e não tinha nenhuma idéia do impacto de sua obra até ver sua exposição no Masp. Pirei. Me encantei não só pela obra genial do artista, mas também pelo discurso político e pelo conceito atístico por trás da obra (ler Vik Muniz tem sido tão estimulante e enriquecedor quanto foi ver). Ele é absolutamente contemporâneo - mistura técnicas, utiliza materiais inusitados, transforma em belo o grotesco, em aprazível o asqueroso, cria a partir de conceitos abstratos - sem deixar de ser acessível, sem deixar de alcançar e se comunicar com qualquer público. E, num momento artístico como o atual, em que oscilamos entre o comercial de fácil digestão e o conceitual de impossível compreensão, esse é um mérito a ser aplaudido.
A exposição está no Masp, o livro se chama Reflex e foi publicado no Brasil pela CosacNaify. Valem muito a pena, ambos.
Olha esse vídeo dele falando no TED: http://www.ted.com/talks/lang/eng/vik_muniz_makes_art_with_wire_sugar.html
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